Entrevista muito interessante. De acordo com as palavras do pesquisador, parece haver vários mitos em torno do problema das armas de fogo no Brasil. Posso afirmar que, em Boa Viagem, Comarca da qual sou atualmente titular, existe uma recrudescente cultura de posse e porte de arma de fogo. Embora sem deter estatísticas oficiais, a experiência revela que, naquela cidade, o número de homicídios praticados com arma de fogo é, no mínimo, equivalente àqueles cometidos com quaisquer outros instrumentos, estando a quase totalidade deles relacionados a bares e festas, prncipalmente, na zona rural. Isso significa que, onde o policiamento é ineficiente - e vale lembrar que, em Boa Viagem, há distritos localizados a mais de 70 km da sede - indivíduos frequentam lugares públicos trazendo consigo armas de fogo. A Vara Judicial e a Promotoria de Justiça tem dado atenção especial a esse fenômeno. Há dias em que a pauta de audiências é completamente preenchida com processos judiciais dessa natureza. As sentenças condenatórias vem sendo prolatadas e executadas. Depois da implantação do Ronda no Quarteirão na sede, e que ao mesmo tempo viabilizou a presença mais constante da polícia militar na área rural, o número de prisões em flagrante com base no art.12 ou 14 do Estatuto do Desarmamento aumentou consideravelmente. Mas, ainda assim, a cultura do "velho oeste" persiste. Talvez devamos nos preocupar mais com o controle do mercado e da circulação dessas armas, como indica a pesquisa.
Precisa mais controle e informação
O sistema das secretarias de Segurançaainda é falho na contabilização de armas usadas e apreendidas, segundo o pesquisador Júlio César Purcena, da ONG Viva Rio
O economista Júlio César Purcena, 33, foi um dos integrantes da ONG Viva Rio que trabalharam diretamente, durante dois anos, destrinchando dados sobre armas registradas no Brasil. Hoje são 16 milhões delas circulando - só a metade legalizada. Numa contagem anterior, antes do Estatuto do Desarmamento (2003), eram até mais, 17 milhões. O que não significa, segundo ele, que houve uma diminuição absoluta desse armamento. “Em última instância, está sendo mais difícil entrar arma de fogo no mercado ilegal”, relativiza.
Purcena expõe uma situação que talvez ajude a explicar o porquê de tantas armas nas ruas brasileiras. Segundo ele, há várias, talvez milhares, de armas de fogo produzidas anteriormente a 1980, quando não era obrigatório registrar o armamento nas Secretarias da Segurança Pública.
“Também não havia centralização das informações (via Sistema Nacional de Armas, do Ministério da Justiça). Isso sempre facilitou essa informalidade, de se adquirir uma arma de fogo que não necessariamente tenha sido registrada e você passá-la adiante”, detalha Purcena, sobre o quantitativo imenso de armas informais.
O POVO - Qual o caminho de uma arma ilícita no Brasil?
Júlio César Purcena - No Brasil, as armas apreendidas, em sua maioria, são de fabricação nacional. Geralmente é uma arma curta, revólver ou pistola, de uso permitido. Ou seja, os calibres 32, 22, 38 de revólver ou pistolas 765 e 6,35. Esse perfil está dizendo que a arma de fogo que é apreendida foi adquirida. O percentual de registro prévio é de 30%. Podemos levantar que a arma de fogo apreendida no Brasil tem sobretudo origem informal.
OP - O que isso significa?
Purcena - Que não necessariamente está ligada ao crime. Ela é sempre de origem legal, saiu da fábrica e foi para uma loja de origem legal. Quando sai da loja para um proprietário, nem sempre ela tem uma origem legal. Porque ainda existe um número muito expressivo, grande, de armas de fogo produzidas antes de 1980. E antes de 1980 os registros não eram obrigatórios nas Secretarias de Segurança Pública. Além disso, em 1997, quando foi instituído o Sinarm (Sistema Nacional de Armas), não havia centralização das informações. Isso sempre facilitou a informalidade, de se adquirir uma arma de fogo que não necessariamente tenha sido registrada e você passá-la adiante. Ela sai da loja numa aquisição legal e depois informal. Quando ela foi apreendida é porque esteve envolvida em algum delito. Pode ser briga de vizinho, agressão, homicídio, assalto, uma diversidade de delitos. Uma das coisas que pode estar por trás desses delitos é um desvio, nesse universo muito grande de armas informais.
OP - Desvio por policiais?
Purcena - Não necessariamente. Uma das coisas que pesquisamos, em armas rastreadas saídas das fábricas nacionais, é que a maioria foi comprada em lojas. Não se registrava. O registro ainda era estadual, era difícil fazer esse tipo de avaliação. A maioria comprada em loja, o segundo grupo (da aquisição) foi pelas vias do poder público. Numa análise de rastreamento, temos a identificação do primeiro comprador. Dizia: “polícia tal”, “força tal”, Exército, Marinha ou Aeronáutica. Só que é uma arma de fogo, o que sugere que não era de uso do Estado, mas privado.
OP - O dono era agente público, mas a arma não era do Estado?
Purcena - – Exatamente, de uso privado. Mas por que aparecia o nome da Força (militar ou policial)? Porque às vezes oferece facilidades. Compra em nome do Estado, descontada em folha, parcelamentos longos. É uma fonte de desvio. É pouco, mas tem que ser levado em consideração. Sabemos que, em geral, as armas apreendidas são de fabricação nacional. Podem apresentar perfil de arma de fogo vinda da informalidade. Como ela cai no crime, pode ser através de furto, roubo ou extravio. Aí você tem que analisar mais a situação por caso.
OP - O Rio tem uma realidade muito particular.
Purcena - Exato, muito diferente do restante das cidades. Quando você analisa situações de delito cometidas com armas de fogo no Rio, em registro de ocorrências, você percebe que existe muito mais perfil de armas de fogo de uso restrito. O que não significa que não seja um problema grave, é gravíssimo. As armas de origem estrangeira são de uso restrito. Essa informação é tão rica quanto a de 80% de desinformação por problema de controle no Brasil.
OP - Controle de informação das secretarias de segurança?
Purcena - Exatamente. Vamos falar de políticas de regulação, controle de armas de fogo. Como o Estado faz para garantir que o cidadão que queira que sua arma tenha condições de segurança e que essa arma não seja mais uma a ser utilizada num crime. É a isso que se refere os 80%. Os 20% têm informação também rica, de identificar canais de contrabando. É muito mais trabalho de inteligência policial do que uma avaliação de políticas de controle.
OP - Os Estados são falhos neste rigor para o uso de armas de fogo?
Purcena - Não que o Estado seja naturalmente falho. Muitos mecanismos devem ser levados em conta para se fazer um controle de arma de fogo, e não somente de registro ou de apreensões.
OP - Existem ou não?
Purcerna - São basicamente de integração. Se existem? Fizemos a avaliação qualitativa pelo o que o Estado informou. Então tentamos ponderar e organizar através de um ranking, as melhores práticas em termos de controle.
OP - E a situação do Ceará?
Purcena - Ficou numa posição bastante intermediária. Ou seja, é necessário, dentro do Estado, estabelecer mais mecanismos de controle e geração de informação. Por exemplo, quando foi solicitado através do questionário, pela Subcomissão Especial de Armas, o Ceará não apresentou uma listagem de armas apreendidas, o que era fundamental para fazer o trabalho de rastreamento. Poderia identificar canais. É uma falha. Não só o tipo de arma, mas identificar a arma. Informar a apreensão de um revólver, modelo tal, calibre tal, marca tal, número de série tal, dia tal.
OP - Vocês pediram esses dados quando? E sobre qual período?
Purcena - Foi solicitado um questionário sobre armas de fogo entre 2006 e 2008, solicitando informações entre 2003 e 2006. Embora o Ceará tenha respondido ao questionário prontamente, informando todos os mecanismos estabelecidos no Estado para fazer o controle sobre armas de fogo, faltou uma informação fundamental, que era uma listagem de armas de fogo. Que por sua vez permitiria fazer uma análise sobre, por exemplo, os canais de desvio.
OP - No Ceará, apreenderam 3.047 armas em 2009 e 3.452 em 2010 (remuneradas aos policiais). Não é preocupante ver tanta arma apreendida num ano e, no ano seguinte, ver outra quantidade equivalente ou maior?
Purcena – Você fala na casa das 3 mil armas. Quando a Secretaria do Ceará informou à Secretaria Nacional da Segurança Pública, há uma média anual de 2.509 na taxa de apreensão (entre os anos pesquisados, 2003 a 2008). Se a política do Estado incentiva que policiais apreendam cada vez mais armas, então aumentou. Sob esse ponto de vista, está tendo êxito. A pergunta que você está me fazendo é se é um trabalho de enxugar gelo?
OP – É.
Purcena – Essa responsabilidade não pode ser só de um. O Ceará não tem fábrica de armas. Elas estão em Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
OP – O que se diz aqui é que se pode comprar um revólver por R$ 150 numa feira livre.
Purcena – Por que tão barato? Pela oferta muito grande.
OP – O país realmente se desarmou desde 2003, após o Estatuto do Desarmamento?
Purcena – É uma pergunta de uma resposta muito difícil. Embora tenhamos uma metodologia para estimar o número de armas em circulação nacional, ela depende muito da capacidade da informação gerada pelos Estados, a respeito de apreensão de armas de fogo. Quando calculamos a primeira vez para agora encontramos o número de 17 milhões e agora foi para 16 milhões. Então diminuiu? Não podemos afirmar isso. O que houve foi um aperfeiçoamento da metodologia, que diminuiu o número. Dizer que está havendo diminuição, não dá para ir por esse lado. A gente tem que fazer uma análise muito maior, mais variáveis, para chegar a esse tipo de conclusão. Em última instância, está sendo mais difícil entrar arma de fogo no mercado ilegal.
OP – Há alguma outra consideração importante no estudo relativa ao Ceará?
Purcena – É muito importante discutir a capacidade da geração de informações. Foram itens avaliados nessa pesquisa. Tratar bem a informação sobre arma de fogo nos traz a possibilidade de conhecer o problema com maior clareza e fazer políticas mais eficazes de controle.
O quê
ENTENDA A NOTÍCIA
Criada em 1993, a Viva Rio é uma organização não governamental que desenvolve pesquisas e discute políticas públicas sobre a cultura de paz. A sede é no Rio de Janeiro, mas a atuação já é até internacional.
ENTENDA A SÉRIE
Por três dias, O POVO lançou o debate: “Por que tanta arma nas ruas?”, título da matéria que abriu a série, dia 19. A partir de pesquisa em todas as edições do Diário Oficial do Estado em 2009 e 2010, foram pagos pelo governo estadual R$ 1,6 milhão de “premiação” por 6.499 armas apreendidas no período. Houve mais armas recolhidas de um ano a outro, mas também houve mais mortes a tiros. Ontem, foi detalhado o poderio de fogo dessas armas, algumas até usadas em guerras. O mais apreendido foi o revólver 38. A série se encerra hoje.
Cláudio Ribeiro
claudioribeiro@opovo.com.br